Lá estava o Orlando, com seu Fiat 147, bege, todo orgulhoso indo em
direção ao shopping comprar os produtos que sua esposa precisava para seu salão de beleza. Estava cansado, pois o almoço tinha sido regado por muita cerveja e agora, com este calor, o sono o invadia.
Já quase duas da tarde e o “Fiatão” indo bem, rodando suave e tranquilo.
Ao chegar na descida do pontilhão da linha do trem, misteriosamente, o “Fiatão” começa a engasgar, cortar a energia, e tossindo e resfolegando, passa por baixo da via férrea e encosta uns 15 metros à frente. À direita, sob uns pés de manga.
- Que será que aconteceu?
Pensa Orlando que, mesmo não sendo “Orlando Furioso” , de Ariosto, naquela hora, estava com seu perene bom humor bastante alterado.
Se não voltasse à tempo, sua esposa poderia perder clientes em seu salão e, com certeza, iria descontar nele, pelo atraso em adquirir os produtos.
Desceu e abriu o capô do “Fiatão”. Tudo parecia em ordem. Nada que ele visse poderia ser considerado anormal.
Oras bolas! O que poderia ter acontecido?
Assim pensando, caminhou para a sombra embaixo das mangueiras já tentando ligar para a esposa e pedir à ela para ligar para o Henrique, seu amigo mecânico vir em socorro.
Telefone de sua esposa estava ocupado!
Sentou na mureta, e recostou-se à convidativa sombra de uma mangueira para esperar alguns minutos e ligar novamente.
Apreciando a paisagem e o modorrento barulho do trânsito, viu um senhor com idade aproximada de 50 anos, aproximando-se à sua esquerda. Caminhava lenta, mas firmemente. Apoiando-se em sua envernizada bengala com cabo de madrepérola. Vestindo calça social, sapatos pretos brilhantes, camisa branca e colete xadrez, parecia um personagem de filme interpretado por “Sir” David Niven em plena cidade do interior brasileiro.
Ao passar por Orlando, cumprimentou-o com um “Boa tarde” amigável, olhando-o nos olhos e batendo na aba do chapéu branco, tipo Panamá.
Orlando retribuiu o cumprimento e segui-o com o olhar.
Uns cinco metros adiante, o homem parou e também sentou-se na mureta para descansar um pouco, tirou o chapéu e, com um lenço de linho branco, enxugou o suor da testa.
Olhando novamente para Orlando, sorriu e fez um comentário à respeito do tempo. Que o calor, para esta época do ano, estava bastante forte.
Orlando, respondeu o comentário, concordando com a opinião do estranho e começaram a conversar.
O homem apresentou-se como Vagner, mas os amigos o chamavam de “Vaguinão” desde criança. Nem ele mesmo se recordava como surgiu o aumentativo.
Vaguinão perguntou se o “Fiatão” era dele e,com a resposta afirmativa, disse-lhe que há muito tempo também tinha um Fiat deste modelo, Só que o dele, do Vaguinão, era verde.
-O que aconteceu? Você o vendeu? Perguntou Orlando, já curioso pela história.
- Não! Disse-lhe Vaguinão! Sofri um acidente e ele não serviu para mais nada! Vendido como ferro velho.
- Oh! Sinto muito! Exclamou Orlando.
- Não se preocupe. Faz tanto tempo que só me lembro dele ao ver um “Fiatão” semelhante.
- Como foi o acidente? Quis saber Orlando.
- Faz mais de 30 anos! Eu tinha 19 anos e foi meu segundo carro. Havia comprado um Corcel por CR$ 17.000,00 (dezessete mil cruzeiros) e dei-o como entrada para adquirir o 147. Fiquei com ele por mais de 5 anos. Casei e viajamos com ele para Campos do Jordão para passar a lua de mel. Bons e excelentes momentos.
Um dia, ao voltar do trabalho, encontrei minha adorada esposa com um sorriso largo e sincero. Veio encontrar-me no portão de nossa casa e, logo após o jantar, contou-me que teríamos nosso primeiro filho. Ou filha. Ela, finalmente, depois de 2 anos de casamento, estava grávida. Olhamo-nos ternamente e beije-a com o coração explodindo de alegria.
O tempo passava rapidamente e os preparativos para a chegada da herdeira, agora já sabíamos que seria uma menina, ocorriam sequencial e rapidamente. Exames de pré-natal, enxoval, berço, e todas as preocupações do mundo caiam sobre minha cabeça.
Afastei-me dos amigos e até do futebol de fim de semana.
Todas as minhas atividades estavam voltadas exclusivamente para minha amada esposa e a criaturinha que Ele havia nos dado.
Após mais de 7 meses sem compartilhar a companhia dos amigos, naquele final de semana, num sábado ensolarado, após muita insistência do Roberto, amigo velho de trabalho, resolvi ir “bater uma bolinha” no clube. Depois de muito futebol, sentamo-nos para a tradicional cervejinha e esqueci o tempo, tão boa estava a conversa.
Ao voltar para casa, por volta das 21 ou 22 horas, encontrei-a indisposta e resolvi, mesmo contra a vontade dela, leva-la ao hospital, pois já estávamos perto da data de nascimento de nossa amada filhinha.
Preparamos todo o material, entramos no carro e eu, velozmente, parti em direção ao hospital.
Na pressa em chegar ao hospital, não sentia a velocidade e, só sentiu que tinha perdido o controle do “Fiatão” quando viu o poste se aproximando, tentou ainda virar o volante e pisar no freio. Sua amada esposa, por causa da gravidez estava sem cinto e, naquela época, nem era obrigatório o uso deste acessório. Sentiu a pancada forte do volante sobre o peito e a cabeça no vidro.
Acordou uma semana depois. Com o corpo inteiramente dolorido e com a perna esquerda imobilizada. Havia sido quebrada em 4 lugares, deixando-o com dificuldades em caminhar.
Soube, por parentes e amigos, que tanto a sua esposa quanto sua esperada e amada filhinha, não sobreviveram ao impacto.
O sepultamento havia sido no domingo seguinte ao acidente.
O “Fiatão” foi depois vendido como ferro-velho e, doravante, sua vida tem sido culpar-se por ter tomado tantas cervejas naquele fatídico sábado.
Orlando olhava-o embevecido com a história e sentiu uma mão em seu ombro esquerdo, chamando-o. Ao virar-se viu sua esposa, com cara de assustada à olha-lo. Virou-se novamente para falar com Vaguinão mas, este havia desaparecido.
Sem entender, o que estava acontecendo, perguntou à esposa como ela havia chegado até ali.
Ela disse-lhe que como ele estava demorando, ela veio procura-lo, pois já eram mais de 5 horas da tarde e ele não atendia ao celular.
- Como assim mais de cinco horas?
- Você saiu de casa para vir ao shopping comprar o material. Parou o carro aqui e dormiu embaixo desta mangueira.
-Não! O carro quebrou. Parou de funcionar. Eu tentei te ligar mas o telefone estava ocupado!
-Não há nenhuma chamada tua aqui no celular.
Orlando, procurava Vaguinão para entender o que havia ocorrido, mas, ele havia desparecido.
Levantou-se, foi até o “Fiatão” ligou-o e, milagrosamente o carro funcionou. Não havia nada de errado com ele.
Sua esposa, ao lado, olhava-o embevecida e grata por ele estar bem.
Orlando não entendia o que havia acontecido. Como pode tudo isto acontecer? Ele não entendia. Fez o retorno em direção à sua casa, pensando sinceramente que as cervejas do almoço não tinha sido poucas como pensava. Tinha que começar a pensar em parar de beber e dirigir. Mesmo que fosse de dia.
O “Fiatão” afastava-se rapidamente, enquanto, por detrás de uns arbustos, Vaguinão tirava o colete, e a camisa, de onde saltaram duas asas brancas e enormes. Olhando para o “Fiatão” se afastando, sabia que havia feito mais uma boa ação, mostrando ao Orlando que, por segundos de irresponsabilidade podemos mudar radicalmente nossas vidas.
Ergueu as asas e voou em busca de novos sonhos para melhorar a humanidade.
E você, leitor(a)? Jjá sonhou com algo que poderia ter mudado suas atitudes perante a vida?
Achei linda a história, anjos existem de fato, pois creio nisto! Deus os enviam para nos guardar, anjos me fascinam!!!