• E a minha saúde?

    Postado 6 novembro, 2012 por em Artigos

    E lá estava eu, sentado dentro do ônibus, as 18:15 indo pro Bairro Alto da XV em Curitiba.

    Trânsito difícil.  Eu já havia deixado o carro em casa justamente para não passar por aquilo mas, mesmo o ônibus estando em faixa  exclusiva, estava tudo parado.  Calor excessivo dentro do veículo.
    O motorista quieto, ensimesmado, olhando pensativamente o nada!

    Um senhor, sentado ao meu lado, com camisa xadrez e boina de feltro, com idade aproximada entre  60-65 anos, faz um muxoxo rouco e sua cabeça pendeu para a frente.
    Instintivamente, estico os braços e o amparo antes que ele caia.

    Ele baba em fluxo cada vez maior e a debater-se violentamente.

    Já havia, antes, visto este tipo de sintoma e, rapidamente, com a ajuda de mais dois passageiros, o deitamos no chão do ônibus e eu, com as pernas cruzadas, segurei a cabeça dele em meu colo enquanto os outros dois passageiros seguravam as suas pernas.

    Coloquei a mão em sua boca e retirei-lhe a prótese ao mesmo tempo em que, transversalmente, empurrava meu antebraço em sua boca, obrigando-o a manter a boca aberta e sua cabeça de lado.

    Isto durou quase 4 minutos e ele, devagarzinho, foi se acalmando

    Quando o sentimos mais calmo,  um dos passageiros disse que tinha um hospital público a menos de 3 quadras de onde estávamos.

    Resolvemos, eu e mais  os dois passageiros, leva-lo até o hospital. Descemos do ônibus (que incrivelmente nenhum passageiro havia reclamado) e fomos levando-o até o hospital. Um dos “amigos do ônibus”, pegou os documentos do “paciente” e descobriu seu (dele) nome, juntamente com uma conta de telefone.

    Iria até um telefone público ligar para o número que estava na conta e depois iria nos encontrar no hospital.

    Eu estava me sentindo bem em poder ajudar um completo desconhecido. Pensei que aquele senhor poderia ser um conhecido ou parente meu e ficaria contente se alguém o ajudasse.

    Tudo estava indo muito bem. Ele já estava se recuperando, começou até mesmo a balbuciar incompreensíveis palavras.

    Eu e o “amigo 1” do ônibus o levamos apoiando-o nos braços. Como se ele estivesse bêbado.

    Ao chegar ao hospital eu pedi uma maca para atendimento URGENTE.

    Agora, amigas(os) começa a verdadeira história.

    Uma moça loira, 18-20 anos, com óculos de espessas lentes, num balcão alto, mexendo em um monte de fichas, autoritariamente, olha pra mim e com um tom de voz “sargentélico” diz:

    -  Coloca ele (sic) aí na cadeira que já  vou buscar uma maca!

    Desajeitadamente, colocamos, eu e o amigo nº 1 do ônibus, o paciente, sentado e ficamos ao lado, segurando-o.

    A moça continuou mexendo nos papéis lá dela.

    Uma eternidade de três minutos depois, sem que a moça tivesse se manifestado em sair do balcão, perguntei-lhe onde tinha uma maca que eu mesmo iria busca-la. Ela, agora já com tom de voz “tenentemente” se vira e diz:

    -Eu já lhe disse que eu vou buscar!

    Neste momento  dá-se o seguinte:

    Eu – Moça, por favor, qual seu nome?

    Ela – Porque quer saber?

    Eu –  Assim que eu processar o hospital, como pessoa jurídica, o diretor do hospital, a chefe das enfermeiras, e o chefe do recursos humanos , o Juiz irá querer saber QUEM ME ATENDEU. Por isto preciso saber seu nome.

    Ela – Porque o senhor faria isto?

    Muito calmamente e olhando-a diretamente nos olhos digo-lhe:
    - Por enquanto, só por descumprimento à LEI, pelo Estatuto do Idoso,  em dar prioridade a atendimento aos idosos. Mas, se demorar mais um pouco, processa-los-ei por homicídio doloso (aquele em que há a intenção, ou então aceita-se o risco de matar) se este senhor vier a óbito!

    Caras(os) leitoras(es). Em menos de dois minutos havia não uma mas, DUAS macas, enfermeiras e um médico com todo o aparato de primeiros socorros.

    Levaram o paciente para dentro do hospital, enquanto a “moça do balcão” me olhava meio de soslaio.  Agora “recrutamente” pergunta o que havia acontecido, se eu tinha algum documento dele. Contei-lhe o ocorrido e que o “amigo do ônibus nº 2” já chegaria com toda a documentação.

    Realmente, menos de 5 minutos depois, chegou o amigo nº 2 e mostrou-lhe toda a documentação que ela queria.

    Disse-nos que o filho do “paciente” já estava à caminho.

    Vinte minutos depois, chegou o filho do paciente e contamos-lhe o que havia acontecido, não mencionando a conversa com a “moça do balcão”, lógico!

    Todos sabemos, ou deveríamos saber,  que a preservação da vida é prioridade em qualquer espécie. O caso acima é apenas um dos milhares e milhares que ocorrem pelo Brasil. Dos confins ao sul das terras do minuano  ao norte da linha do equador, temos exemplos, e tenho certeza que você deve se lembrar de pelo menos UM caso conhecido, das estripuliuas que ocorrem na saúde pública do Brasil.

    Mas, creia-me, os casos de mau atendimento são incomensuravelmente menores aos casos de bom atendimento.  Como só os casos de MAU atendimento chegam até nós, temos a impressão que são todos parecidos com o atendimento da “moça do balcão”.

    Não! Não o são.

    O tipo de atendimento que ela (moça do balcão) tentou me impingir são, senão raros, pelo menos em quantidade pequena, dentro do universo de atendimentos diários em todo o Brasil, mas comuns dentro daquilo que nos chegam via imprensa ou no boca-a-boca.

    Não estou aqui formulando defesa para explicar ou justificar o mau atendimento. Muito pelo contrário. Quero aqui deixar bem claro que este tipo de atendimento deve ser sumariamente extirpado, não somente, mas principalmente, de todos os hospitais.

    Só quem tem dor ou está vendo um ente sofrendo, sabe do que falo.

    O atendimento à saúde deve ser “mais ainda especial”, posto ser, geralmente, em momento de extrema fragilidade, não só fisica mas, principalmente emotiva, dos contribuintes. A responsabilidade por este atendimento vem, “a priori” de todos os governantes, da presidente da república, passando pelo governador e chegando ao prefeito.  Cada um deles, dentro do seu bojo de responsabilidades, tem, ou deveriam ter, em sua equipe, pessoas que são, ou deveriam ser,  extremamente capacitadas para a administração e gerenciamento do atendimento à saúde, posto ser os mesmo, a escolher,  e se responsabilizar por, Ministro da Saúde, Secretario Estadual da Saúde e Secretario (ou Chefe de Departamento) Municipal da Saúde.

    Estes, Ministro, Secretário Estadual e Secretário Municipal, ao aceitarem o cargo, aceitam, implicitamente, a responsabilidade por toda a saúde pública da Nação e, por isto mesmo, temos visto, cada vez mais, a capacitação técnica do pessoal “de frente”, puxando por sua vez a capacitação pessoal.

    Por “capacitação pessoal” entende-se a capacidade de pensar racionalmente no atendimento à população nas horas emergenciais, ou seja, tomar a decisão certa o mais rapidamente possível, sem perder de vista o lado humano do atendimento.

    O tom de voz, a postura física, a mão no ombro, o olhar amigo, o chamado pelo nome são os intangíveis detalhes que fazem a diferença na hora mais necessária e que será lembrado perenemente por aquele que foi atendido.

    E estas coisas simples e gratuitas, leitoras(es) poderão fazer toda a diferença do mundo para uma vida mais justa, humana e compatilhadora.

11 Responses to E a minha saúde?

  1. Cristoph says:

    Caro Eloy,
    ótimo! Sabe? eu gostaria que essas fossem situações normais para nós – de ajudar! Sei que é coisa de sonhador, “mas eu não sou o único”, de um dia ver uma sociedade onde honestidade e ajuda ao próximo seja algo tão normal, que não vamos mais precisar dar parabéns para atitudes assim.
    …mas até lá: Parabéns!!

    • Eloy Souza says:

      Grato Cristoph! Sua leitura e comentario com plavras tão gentis, me animam a prosseguir na luta para fazer, se não um mundo melhor, pelo menos para fazer o mundo ao meu redor melhor. Muito obrigado!

  2. Neusa J. Picareli says:

    Artigo excelente !Precisamos de Palestras sobre Atendimento ao Cidadão, para que cenas como essa não se repitam.Tem que ser esclarecida qual é a diferença entre Funcionário Público e Servidor Público e palestra desse naipe é sempre bem vinda e dá respaldo necessário para esses funcionários municipais, estaduais ou federais.

  3. Borges says:

    Eloy
    Infelizmente, às vezes temos que ser até um pouco rudes com os funcionários públicos, em virtude do descado no atendimento à população(não generalizando).
    Sorte desse senhor que teve você, junto com os outros dois passageiros, como anjos da guarda, e sua presença de espírito em utilizar o “Estatuto do Idoso” e o Código Penal, não em sentido de ameaça, mas de abrir os olhos da atendente nos crimes que ela poderia ser enquadrada. Infelizmente, a maioria da populaçao não conhece seus direitos e isso têm beneficiado esse tipo de servidor e, sobretudo, os políticos.
    Penso que o curso de Introdução ao Direito deveria ser matéria obrigatória no ensino fundamental.
    Parabéns pela sua atitude.
    Vindo de um filho do Seu Gumercindo Ribeiro de Souza, um dos primeiros políticos que aprendi a admirar e respeitar na nossa Bela Vista do Paraíso, não poderia ser diferente !
    Grande abraço

  4. Odila says:

    Eloy, infelizmente é essa a realidade de nosso país. Muito descaso com a saúde e também desrespeito com os idosos. Foi muito bom você ter escrito esse texto, pois só assim podemos contribuir com a melhoria dos serviços públicos.

  5. Marisa Cruz says:

    CARO ELOY

    O QUE É UM SERVIDOR PÚBLICO?
    UM CONCURSADO COM A OBRIGATORIEDADE, ANTES DE PENSAR NA ESTABILIDADE DO EMPREGO E SEM CHEFE PARA COBRÁ-LO, EM SER 100% SERVIDOR PARA O POVO QUE PAGA SEU SALÁRIO.
    AO PASSAR NO CONCURSO PÚBLICO O CIDADÃO PARECE TOMAR UM CHÁ DE GRANDEZA E SOBERBA QUE O FAZ TORNAR-SE ARROGANTE NÃO SÓ NA POSTURA CORPORAL COMO NA VERBALIZAÇÃO DAS PERGUNTAS E RESPOSTAS SEMPRE AGRESSIVAS E EVASIVAS.
    O CIDADÃO COMUM, SEM SABER DOS DIREITOS QUE ESTÃO NA CONSTITUIÇÃO, SE TORNA PRESA FÁCIL PARA ESTES FUNCIONÁRIOS SEM NENHUM PREPARO EMOCIONAL PARA CUMPRIR COM SUAS OBRIGAÇÕES.
    SEMPRE PENSO EM CARTILHAS COM LETRINHAS DE CADERNO DE CALIGRAFIA TANTO PARA O CIDADÃO QUE DIARIAMENTE DEPENDE DO SERVIÇO PÚBLICO COMO TAMBÉM PARA O SERVIDOR PÚBLICO COM REGRINHAS BÁSICAS DE COMPORTAMENTO.
    ÚNICA SOLUÇÃO QUE VEJO PARA PROPORCIONAR MELHORIA NO ATENDIMENTO SERIA ACABAR COM A ESTABILIDADE, A MERITOCRACIA E FIM DOS APADRINHAMENTOS POLÍTICOS.
    UM DIA CHEGAREMOS LÁ!!!

    Marisa Cruz

  6. Sonia Salim says:

    Eloy, percebemos que em todo lugar o sistema funciona dessa forma. E só mesmo mostrando que se entende de leis e exigindo o atendimento necessário é que o paciente consegue o devido atendimento. É muito importante deixar registrado tudo isso porque sempre aprendemos uns com os outros.

    Grande abraço!

    Sonia Salim

    • Eloy Souza says:

      Grato Sonia. Procuro, sempre, depurar cada vez mais o assunto que me proponho a explorar. Sua leitura e comentário faz-me cada vez mais responsável a este respeito. Grato novamente!

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