• A manifestação do meu querer!

    Postado 1 julho, 2013 por em Artigos

    Gian andava rápido,porém, seguro do que fazia. Passos decididos daquele que sabe e confia naquilo que faz.
    O cartaz em sua mãos, elevado bem acima da própria cabeça dizia: “Fora corruptos” ! Seus amigos, o Totonho, o Leonel e o Francisco, também empunhando cartazes sob o mesmo tema, estavam juntos. Desde a os primeiros anos escolares eles se conheciam. Confiam um no outro e pensavam relativamente da mesma forma. Exceto que, no futebol,  Gian torcia pro Corinthians enquanto o Totonho e Leonel para o Palmeiras e o Francisco para o Santos. Tinham crescido juntos. Jogavam vídeo-game e assistiam ao futebol, sempre na casa de um deles. Amigos de coração mesmo. Nesta manifestação a policia andava calmamente ao lado dos manifestantes. Houve um policial que até foi conversando longamente com eles. Perguntava como era a escola. Que ele, policial, tinha um filho que estudava medicina numa faculdade lá no bairro deles. Que deveria se formar dali dois anos. Que a mãe, orgulhosa, do filho, estava ajudando-o de todas as formas possíveis. Ele era policial e a mãe era costureira. Se algum dia o Gian quisesse um roupa sob medida era só procura-lo. Dali em diante, começaram a contar piadas. De todos os tipos. As mais politicamente incorretas possíveis. Gian, sem deixar de agitar o seu cartaz, ria da cara que o policial fazia ao contar as suas histórias. Totonho, Leonel e Francisco tinham adiantado o passo e estavam uns quatro ou cinco metros à frente deles. Foi neste exato momento que ouviram uma explosão. Uns 50 metros atrás do sentido da caminhada. Escutaram o estilhaçar de vidros e uma labareda subiu aos ares. Gian, meio perdido não sabia para onde correr. Num relance, viu seus três amigos disparando em frente, enquanto outros manifestantes, voltam e se dirigiam rapidamente ao local da explosão. O policial, pegou Gian pelo braço e praticamente arrastou-o até a esquina, em direção contrária à explosão. Foi neste instante que Gian viu diversos flashes de máquinas fotográficas pipocarem em seus olhos. Nem se importou com isto e rapidamente saiu daquela zona de confronto e correu para a direção que o policial indicou. Ouviu o policial dizer:

    - Caminhe, não corra, por três quadras! Pegue um ônibus sentido leste e volte pra casa. De agora em diante, será só confusão por aqui. Eu vou voltar e ver em que posso ajudar.

    Gian jogou a folha de cartolina numa lixeira e, calmamente, andou as três quadras, pegou o ônibus e voltou tranquilo para casa. Durante o trajeto, falou,  pelo celular, com Totonho que disse-lhe que os três estavam bem e que estavam voltando de taxi para casa.

    No dia seguinte, diversos jornais estamparam a foto do policial levando preso um dos manifestantes. Na TV, no principal jornal da noite, foram mostradas duas ou três fotos dele sendo empurrado violentamente pelo policial. Um deles, um comentarista famoso, disse:

    - Vou conversar com meu amigo comandante da policia e vou colocar a cara deste policial bandido aqui na tela.

    A maioria deles, pediam ao Comando da Policia que identificasse e punisse o policial por ato tão covarde.

    Gian, ao ler todas aquelas noticias, ficou indignado e telefonou a diversos órgãos da imprensa dizendo que não havia sido nada daquilo. Na verdade o policial estava ajudando-o a sair dali. Ninguém deu importância ao que ele falava. Uma das emissoras chegou ao cúmulo de dizer que esta história nem era interessante como “espírito jornalístico mercadológico”. Um jeito sutil de dizer que, não basta ser verdade, tem que vender.

    Passou quase o dia inteiro no centro da cidade, procurando jornais e emissoras de TV, que estivessem interessados na verdade. Não encontrou ninguém. Surpreso, finalmente, deu-se em conta que ninguém estava interessado na verdade.

    Depois daquela noite, já haviam ocorridos mais uma centena de manifestações pelo país inteiro e, o caso do “policial covarde” acabou caindo no esquecimento. Ninguém mais falava sobre isto.

    Enquanto isto acontecia. Elvira, uma empresaria no ramo de embalagens plásticas, procurava desesperadamente por um assessor. Uma pessoa ousada em suas ações mas “low profile” (discreta) em seu comportamento. Ao ver a foto de Gian nos jornais, pensou imediatamente em contata-lo mas, devido a sua exposição na mídia, o segundo quesito (discrição), não atendia aos interesses da empresa. O jovem ousado, que por um momento, passou pela cabeça de Elvira contratar, foi dispensado sem nem ao menos saber, que, um dia, ele foi sem nunca ter sido.

    Já por outro lado, Américo, um outro empresário, agora no ramo de móveis de madeira, também procurava desesperadamente por um assessor. Jovem, dinâmico, ousado. Sem medo de se expor. Também ao ler os jornais do dia, ao “bater os olhos” em Gian, soube de imediato( seu feeling nunca o enganara antes) que ali estava o jovem assessor que ele procurava.

    Entrou em contato com alguns amigos que tinham amigos na imprensa e acabou descobrindo como contatar o jovem Gian. Ligou, marcaram uma entrevista e Gian acabou sendo contratado pela empresa do Américo.

    - Ô Eloy! Ta bom! E daí? O que tem a ver toda esta história?

    Calma, preclaro! Calma que já te explico!

    Você notou que a situação apresentada aos dois empresários foi a mesma não é? Um interpretou de uma forma e outro de jeito distinto.

    O que digo é que, NÃO IMPORTA o que você faça. Sempre haverá alguém para interpretar de forma diferente aquilo que realmente aconteceu. Ou que fosse a tua intenção. Para condenar a sua inocência ou absolver a sua culpa.

    A imprensa interpretou totalmente errado (neste caso por interesse próprio) o fato. Distorceu a verdade.
    Já Elvira, interpretou de uma forma que, PARA A EMPRESA DELA, não satisfaria a necessidade premente!
    Já para o Américo, o mesmo FATO, era exatamente aquilo que ele precisava para a sua (dele) empresa.
    Por isto, preclaro, devemos fazer sempre aquilo que achamos o certo. O correto. Independente daquilo que outros poderão pensar. As nossas ações nos trarão as responsabilidades pelas consequências e, por isto mesmo, não podemos obrigar uma pessoa a participar ou não participar de qualquer manifestação. Seja contra ou a favor do que quer que seja. O maximoa que podemos fazer é discutir (discutir no sentido de ARGUMENTAR e não de brigar) com as pessoas aquilo que achamos o melhor a fazer. Não podemos obrigar uma mulher (ou um homem) a casar ou permanecer com que não ama. Não podemos obrigar um torcedor de um time a torcer a favor de outro time. Não podemos e não devemos NUNCA obrigar a quem quer que seja a fazer ou deixar de fazer algo. Senão e, unicamente em virtude de LEI. Todas as tuas ações poderão trazer-te boas ou más consequências, mas, nunca haverá uma ação sequer sem que haja uma consequência.

    Como você tem agido ultimamente? Tem pensado nas consequências? Tem assumido tuas responsabilidades?
    Você tem, ousado e responsavelmente, manifestado o seu querer?

8 Responses to A manifestação do meu querer!

  1. Americo Pinheiro Junior says:

    Adorei o artigo pelo fato de que, as vezes ocorrem coisas que as
    pessoas interpretam de uma forma completamente diferente, e o senhor
    conseguiu explicar isso de uma maneira muito legal.

    Parabéns!!

  2. rosangela says:

    Parabéns meu querido amigo !

  3. Cidinha says:

    Eloy meu querido amigo,por quantas dessa já passei até aprender,confesso que ainda teimo em não saber e deixando pintar aquela pontinha de preocupação com o que pensarão dessa ou daquela atitude. Continuo exigente comigo, só comigo. Continue partilhando.

  4. Neusa Joseli Picareli says:

    Excelente artigo ! Sim, me levou à reflexão…”O que digo é que, NÃO IMPORTA o que você faça. Sempre haverá alguém para interpretar de forma diferente aquilo que realmente aconteceu. Ou que fosse a tua intenção. Para condenar a sua inocência ou absolver a sua culpa.”
    Procuro sempre manifestar o que penso ou quero, mas às vezes me sinto como o Gian…Tomara que Não encontre “IMPRENSAS” que distorçam meu querer obrigando-me a ficar calada…
    AH! Fiquei curiosa …O que será que aconteceu com o policial amigo…?Será que seus comandados deram à ele o direito de esclarecer o ocorrido…?
    Mais um artigo que merece ser lido, refletido, comentado e compartilhado.
    Parabéns Prof. Eloy !

    • Eloy Souza says:

      Grato Neusa, por sua leitura e comentário!
      O Policial amigo, após uma conversa séria com o seu (dele) comandante,
      ficou o dito pelo não falado. O Comandante, homem íntegro e com
      bom senso inenarrável, acreditou piamente em seu comandado, posto
      conhece-lo de longa data e sabia que o objetivo da imprensa era somente
      colocar seus comandados CONTRA a população e, quanto mais tentasse explicar
      pior seria, portanto, como “O TEMPO É SENHOR DA RAZÃO” deixou-o passar e
      tudo ficou bem novamente. Eu pelo menos assim agiria.
      Abraços fraternos Neusa!

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